NEWS - FEVEREIRO DE 2003

DA COR

Há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa indefinível cor que têm todos os
retratos, os figurinos da última estação,
a voz das velhas damas, os primeiros
sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas
laterais: - a cor do tempo...

MARIO QUINTANA



NA GARAGEM DE ARTE INTEGRAM ARTES PLÁSTICAS COM DISCUSSÕES DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

     A galeria Garagem de Arte incorpora o espírito do Fórum Social Mundial e realiza a partir do dia 23 de janeiro, até 23 de fevereiro, das 10 horas, diariamente, até às 19 horas um painel com obras de sete artistas plásticos que evocam a temática: vida, povo, fome, trabalho e religião que serão apresentadas ao público em traduções de cor e forma e linguagem. A força de Karin Lambrecht estará representando a palavra vida, enquanto Magliani e Vitório Gheno dão significado ao povo em todas as suas expressões. Trabalho, mostra xilogravuras de Danúnio Gonçalves, com o tema das charqueadas, e religião ganha duas leituras: os ex-votos de Eduardo Viera da Cunha e as igrejas de Alberto Cedron. Já para apresentar a dura face da palavra fome, mais em voga do que nunca, foram escolhidos os gabirus de Xico Stockinger, bem retratados no livro ( citar o livro: título e detalhes).
     A exposição foi montada com obras do acervo da Garagem de Arte e objetiva servir como uma amostra das artes plásticas produzidas no Rio Grande do Sul com temática social. Itamara Stockinger e Beth Menna Barreto Mattos prepararam documentação representativa das obras versus temas, pronta para receber os participantes do Fórum que estejam interessados em conhecer mais sobre o tema plástico.       A galeria, também, disponibiliza livros de arte, biografias e bibliografia relacionada ao assunto.
     A exposição pode ser visitada de segunda a sexta, das 10 às 19 horas, e das 10 às 13 horas, aos sábados.




Texto extraído do livro
“O Brasil na Visão do Artista - o País e sua gente”,
de Frederico Morais

Xico Stockinger se revela. Agora através da escrita

     Se considerarmos a enorme concentração de renda no Brasil, os bolsões de miséria existentes no país, tanto nas áreas mais atingidas pelas secas, no Nordeste, como nas favelas e cortiços metropolitanos, a iconografia da miséria na arte brasileira é relativamente pequena. O artista nacional parece ter um certo pudor em retratar temas como a fome endêmica, o trabalho infantil, os meninos de rua, os bóias-frias, a multidão dos sem-tetos, sem-terra, sem-emprego, sem-nada. Talvez por receio de, ao abordar temas agressivos e candentes como estes, resvalar para uma arte panfletária, de ruja eficácia desconfia, obrigando-o ao mesmo tempo a abandonar aquelas questões que considera essenciais e específicas do trabalho artístico - como forma, cor, espaço e assim por diante. Ou então por não acreditar, depois de tantos fracassos históricos, que a arte seja capaz de mudar estruturas sociais e políticas. Alguns artistas até que buscaram, e continuam buscando, uma aproximação a esses temas, de forma direta ou indireta, sob pressão dos acontecimentos sociais e políticos ou animados por um sentimento vago de que alguma coisa precisa ser feita, é preciso opinar, denunciar, participar. Este é o caso de Ivan Serpa, fundador e líder do Grupo Frente (1954), do qual saíram os artistas que iriam formar, mais tarde, o movimento neoconcreto, realizador, entre 1963 e 1964, da esplêndida "série negra", na qual vemos figuras deformadas, macrocefálicas, que se organizam a partir de manchas negras, assumindo, assustadoras, a superfície da tela. Serpa justificou esta fase com a necessidade de dar um sentido social à sua pintura, a fim de retratar o clima de insatisfação política e social do país. Seu estado de espírito naquele momento levou-o a afirmar: "Só vejo dois caminhos para os artistas: contribuir para o desenvolvimento técnico, trabalhando para a indústria, ou denunciar as contradições, fazer: os outros homens pensarem". Dado o recado, retomou a vertente geométrica da qual foi, sem dúvida, um dos pioneiros no Brasil.
     O tempo, crítico severo, tanto pode remeter a maio- ria dessas obras circunstanciais para uma espécie de vala comum, onde se amontoam trabalhos desprovidos de um significado maior, quanto agregar a algumas delas uma qualidade ou valor de símbolo, que, ultrapassando as contingências do momento, só tende a crescer, a ponto de se impor a outras obras ou fases do artista. É o que parece estar acontecendo com as impactantes e perturbadoras pinturas da "série negra" de Ivan Serpa.
     Assim, ao lado de exceções como Ivan Serpa, e de uma ou outra pintura de Carlos Scliar, Carlos Prado ou Eugênio Sigaud, de uma ou outra gravura de Danúbio Gonçalves e Regina Katz, nas quais esses temas são tratados de uma maneira tímida, dois artistas contribuíram, de forma mais eloqüente, para a iconografia da miséria brasileira no século 20: Portinari e Francisco Stockinger.
     As três grandes telas que Portinari pintou em 1944, Retirantes (190 x 180 cm), Criança Morta (180 x 190 cm) e Enterro na Rede (180 x 220 cm), nas quais mostra grupos de maltrapilhos e estropiados fugindo da seca do Nordeste, são o retrato pungente da fome endêmica e secular que corrói populações inteiras nos bolsões de miséria que ainda vicejam na sociedade brasileira. São homens, mulheres e crianças já com seus corpos só pele e ossos, corroídos e carcomi- dos pela fome, os pais enterrando os filhos pelo caminho, os abutres voejando baixo, quase rentes às carcaças de animais e ao grupo de pés-descalços na terra ressequida, rostos encovados, gente, enfim, que caminha com seus trapos, quase nada, não mais para o Sul-maravilha, simplesmente andarilha, trôpega e famélica, para um lugar qualquer, à espera de um milagre que não acontece. Pode-se condenar os excessos desenhísticos na figuração dos pés e mãos desses retirantes, as lágrimas que caem como pingentes dos olhos, a retórica de gestos e a teatralidade do Enterro na Rede. No entanto, como não se lembrar, vendo essas telas, de algumas obras-primas da pintura universal, como a Pietà de Villeneuve, no Museu do Louvre, ou das fotografias de Se- bastião Salgado documentando aquele formigamento huI1la- no de Serra Pelada? Como esquecê-Ias? A versão escultórica do tríptico portinaresco da fome é a série de 27 Gabirus, realizada em bronze nos anos de 1995 e 1996 pelo gaúcho Francisco Stockinger. O gabiru (do tupi wawi-ru: o que devora o mantimento) é o rato-de-paiol, o rato preto ou pardo, expressões que se aplicam, especial- mente no Nordeste, àqueles homens miseráveis que vivem de catar, nos lixões das grandes cidades, as sobras do consumo urbano. Do nascimento à morte, a fome tem sido companheira de uma parcela da população brasileira, que em conseqüência da subnutrição crônica transformou-se em nanicos, o homem-gabiru, retratado por Stockinger em tamanho natural, isto é, aproximadamente 130 centímetros. A temática social está presente em diversas fases do artista gaúcho, como nos anos 1970, as séries de Guerreiros e Sobre- viventes, em cuja realização emprega materiais diversos, como ferro, madeira, ossos e sucata industrial. São homens que, sobrevivendo às guerras, retornam feridos e mutilados aos seus lares, mas ainda estão de pé, orgulhosos do dever cumprido. O gabiru de Stockinger, entretanto, não é mais homem, perdeu toda esperança de viver de modo digno como um filho de Deus. Como os retirantes de Portinari, caminha a esmo, carregando nos braços o filho morto.



André Severo
Artista Plástico. co-autor do Projeto AREAL.

POESIA DE TERRA E SANGUE KARIN LAMBRECHT

Karin Lambrecht, uma das principais referências da arte contemporânea produzida no Rio Grande Sul, apresenta nas Pinacotecas, de 25 de julho a 25 de agosto, oito pinturas realizadas entre 1997 e 2002 a partir de duas vertentes básicas na sua obra: o abstrato e peças produzidas dentro do projeto Registro de Sangue, em que usa terra e sangue de carneiro abatido como pigmento de pinturas e desenhos. Karin Lambrecht foi um dos três nomes escolhidos, entre os brasileiros, para ocupar salas individuais na 25º Bienal de São Paulo. A artista, da geração formada no Instituto de Artes no final dos anos 70, estudou em Berlim e apresenta, no currículo, uma série de importantes exposições coletivas e individuais. O artista André Severo apresenta um ensaio livre a partir da obra de Karin Lambrecht, sua parceira e interlocutora em investigações sobre processo criativo e criação.
     No mundo compreendido por nossos sentidos, em permanente fluxo de pensamentos, sucessão de movimentos, escoamento de fatos, matéria e substância estão intimamente ligados. Nada se determina com precisão, de forma separada ou sem influência mútua, tudo está em conexão, dualidade, correspondência, comunicação e interação. O acaso e a ambigüidade, mais do que o programado e o exato, parecem traduzir as características essenciais do pensamento contemporâneo. Vivemos uma época de incertezas e, frente ao abismo do existir, nos encontramos constantemente no vazio de nossa contingência humana. No mundo visível, composto pela alternância contínua entre possibilidades de mudança e de permanência, alicerçamos nossas verdades e expectativas absolutas. Residimos na finitude mas, na ânsia de apreender o eterno, nos sentimos constantemente chamados por uma verdade e uma vida infinitas que nos dão suporte, nos transcendem e nos invocam a ver além das coisas materiais e temporais. As dimensões abertas, acidentais e incertas de nosso pensamento nos parecem hoje, mais do que nunca, as substâncias valorosas onde tentamos forjar nossa personalidade, nossa identidade, nossos questionamentos humanos e existenciais particulares. O ambiente material, com o qual nos relacionamos quotidianamente, parece cada vez mais dominado por coisas e acontecimentos que ocupam espaço e perdem, gradualmente, sua resistência. A dimensão espiritual, na qual projetamos nossas expectativas de encontro existencial, se revela dividida pelo constante embate entre o niilismo e o desejo de plenitude. Na vida, nos defrontamos com fatos que, parcial ou totalmente, escapam ao nosso domínio. Em tais ocorrências, o imprevisto e a falta de clareza representam papéis de extrema importância para a compreensão e o desdobramento desses eventos. Mesmo no campo do fazer artístico, muitas vezes estimulado e determinado pelos embates, encontros e transformações impostos por essas dimensões materiais e espirituais não escapamos ao controle entrópico e, neste caso, também poético, do aleatório.
     Caminhar no solo acidentado, caótico, coberto de escombros e muitas vezes movediço do campo artístico, parece cada vez mais um ato perigoso que simboliza as dificuldades inerentes às nossas tentativas de alcançar o sentimento de plenitude que, como sabemos, coexiste em todo o movi- mento humano. O questionamento existencial, seja no campo da arte ou da filosofia, tem como alguns de seus temas essenciais a finitude, a incerteza, a indecisão, o compromisso, a solidão, o estar no mundo, a proximidade da morte e o fazer-se a si mesmo nas ações e atitudes cotidianas. O envolvimento artístico como ato de indagação existencial reflete, ou pretende refletir, mesmo que nem sempre objetivamente, tais questões da realidade e da espiritualidade do homem que, na aspiração ao absoluto, se nega a ser reduzido a uma entidade qualquer ou assumir uma personalidade menos complexa. O pensamento humano, nas ocasiões e situações em que não encontra acomodação na vida ordinária e no juízo exato, é acometido por um desejo extremo e irrecusável de mudança. Esse desejo, quando não se trata apenas de uma embriaguez temporária, nos leva a desobstruir certos bloqueios de nossa realidade prática e a transferir e aproximar, tropologicamente, nosso espírito inquieto de uma janela capaz de se abrir para o horizonte expandido do raciocínio artístico. O terreno da arte, por prescindir da articulação lógica do pensamento, desestrutura nosso raciocínio e torna opaca nossa visão da realidade objetiva. É através da experiência com a arte que mais facilmente pode se dar nosso encontro, ou no mínimo nossa possibilidade de embate, com esta razão que muitas vezes nos desorienta e oprime. O campo artístico é uma dimensão de conhecimento capaz de transformar nossas relações habituais e de confundir nossas noções de matéria e espirito, natureza e civilização, homem e animal, vida e morte. Acredito que seja na abertura dessa janela para o horizonte da arte que podemos mais profundamente entrar em contato com uma dimensão poética capaz de embaçar nossa autoconsciência e nossa noção do que é eterno e imutável. Talvez por isso, este tenha sido o terreno escolhido por Karin Lambrecht para basear e desenvolver seus processos de reflexão sobre completude e finitude, seus experimentos existenciais e espirituais, sua poesia material e silenciosa de contingência humana e aspiração transcendente
     Os fluxos de energia, os fundamentos religiosos, a matéria viva, a cor da terra, o calor do sangue, a alma, o corpo e seus resíduos. Esses elementos, sem dúvida poéticos, escolhidos por Karin Lambrecht como substâncias de trânsito para viver em plenitude e ao mesmo tempo aceitar ou se preparar para o inevitável encontro com a morte, trabalhados dentro do horizonte da arte e, mais especificamente, das artes visuais, se conectam, se dispersam, se contra- põem, se antagonizam e se completam para construir uma reflexão existencial que tem, no próprio fazer artístico, sua área de atuação, desdobramento e culminância. O impulso criador é algo basilar nos movimentos de Karin Lambrecht. Suas ações, seus desenhos e suas pinturas procuram uma relação entre o ato gerativo, a crença em tradições sagradas, a idéia de transitoriedade na vida e a expectativa de continuidade na morte. A opção da artista por materiais como sangue, vísceras, terra, sucatas e resíduos, revelam uma atitude existencial de busca espiritual marcada por urna certa passividade diante da morte e, ao que parece, uma impaciência em relação aos descompassos da vida. Muitos de seus trabalhos remetem a indagações de cunho religioso que, apresentados no contexto de uma cultura laica, questionam as expectativas e esperanças comuns ao ser humano, crente ou não. O resultado de suas investigações apresenta, muitas vezes, um caráter hierático e mostra o homem como uma unidade de diferentes modos ou maneiras de crer, ser e agir. Sua arte, porém, é concebida principalmente como meio de colocar o humano em estado de equilíbrio com o meio circundante e expressa uma relação muito profunda entre o homem e a natureza que o contém. Aproximando o homem e o animal em seus trabalhos de sangue, o homem e a natureza, em seus desenhos e pinturas de terra, a obra de Karin Lambrecht parece representar, ou melhor, apresentar, o mundo, o gênero humano, como uma reunião de elementos fluídos que tem no homem o único componente que insiste em se conservar sólido. O que seu trabalho parece mostrar é que, ainda hoje, talvez seja justamente para esse elemento sólido que devamos voltar nossa atenção, pois, mesmo desgastado pelas modificações em curso, ele continua sendo, por sua própria natureza inconstante, a base de sentido para estruturar e questionar os fluxos materiais e espirituais da nossa realidade.
     Parece perfeitamente natural, portanto, que na tentativa de resolvermos os problemas cruciais que nos afligem particularmente, procuremos buscar soluções onde melhor atuamos. No caso de Karin Lambrecht, esta atuação se dá no campo da reflexão artística e, mais especificamente, visual. Seu movimento no terreno das artes plásticas é, sem dúvida, um percurso poético, mas o resultado de seu trabalho parece ser visual só em parte. É uma obra que se caracteriza por proposições de forte apelo material onde fenômenos invisíveis se integram dentro de uma ordenação única de pensamento. A organização visual é utilizada pela artista no intuito de descrever uma operação ético-estética integrada dentro da estrutura da sociedade e para representar uma arte que possui seus códigos e cerimoniais próprios. Desta maneira, mesmo defendendo sua posição como pintora e desenvolvendo seu trabalho dentro do universo pictórico, Karin Lambrecht parece se distanciar, no resulta- do de suas investigações, dos impasses e discussões que a pintura, e a maioria dos pintores, encerra em seu campo específico de observação e apresentação. A pintura, mesmo considerada por muitos a grande arte, não é mais do que uma disciplina dentro das artes visuais - assim como a escultura, a fotografia e a gravura, entre outras. Mesmo livre, direta, sem intenção representativa, com ou sem marcas gestuais, mecânica de processos, técnicas fluidas, desdobramentos do plano, do espaço e da cor, o meio pictórico se firma e, de uma maneira ou de outra, acaba por culminar, em problemas objetivos de superfície, de aceitação ou transgressão dos limites de seu suporte. A obra de Karin Lambrecht, justamente por sua maneira particular de compreender estes processos, abre uma bifurcação nesta grande arte e segue por um caminho solitário de investigação e reflexão. Em seu trabalho há sempre uma ligação emocional com a condição humana, os fenômenos da natureza e da sociedade e cultura em geral. O resulta- do mais imediato desta concepção é a construção de uma trajetória, um percurso artístico, que se expande e se transforma pela tentativa de compreensão da existência, da criatura humana e do processo criativo. É na experiência material e espiritual que se funda a essência do trabalho de Karin Lambrecht. Suas proposições, mesmo quando se tratam apenas de objetos para contemplação, estimulam a reflexão e, ao mesmo tempo que atraem e desviam nossa atenção, nos interessam e fascinam ao invés de simplesmente nos impressionar por sua beleza. É evidente que seus trabalhos são também belos, mas esta beleza assemelha-se mais a uma beleza de outra ordem: a beleza residual da morte subjacente que dá fim à vida ou a beleza germinal da vida que se inicia mas que, inevitavelmente, segue em direção à morte.
     Desde tempos remotos é justamente a idéia de morte que nos recorda a efemeridade de nossa realidade. Habitamos na transitoriedade e, mesmo na ânsia de apreender o eterno, em nós está sempre presente a possibilidade de morrer. Por seus materiais e temas, a obra de Karin Lambrecht nos aproxima do passageiro e nos lembra dos tênues limites entre vivência e mortalidade. Porém, quando trata de ocorrências constantes, onde a vida é encarada de forma poética e imediata, é para a existência humana, na sua irredutível singularidade e inviolabilidade, que a artista dirige sua atenção. Sem muitas considerações teóricas prévias, que poderiam limitar a abrangência de sua investigação, o trabalho artístico é utilizado por Karin Lambrecht como instrumento de indagação existencial. Suas ações podem provocar reflexões de caráter tanto social e político, quanto poético e religioso, mostrando que um ato humano qualquer pode ser, ao mesmo tempo, subjetivo, estético e sensitivo. Aqui, corpo e espírito parecem estar sempre juntos. Em nós, o espírito pode ser entendido como o dado imaterial que se utiliza do corpo para se expressar, para comunicar a vida. O corpo, como o elemento substancial de manifestação da alma e, portanto, nosso suporte de comunicação espiritual com o mundo, a natureza e o outro. Nos trabalhos da artista, esta interação, quando materializada em objetos que remetem ao corpo, parece existir como uma estrutura em decomposição, que se relaciona e é intermediária do contato entre o espírito e o ambiente externo. Esta busca de compreensão existencial através de um corpo que apodrece e caminha em direção à finitude, nos mostra a existência, se conduzirmos nosso raciocínio pela lógica da matéria, como um mero fluxo de tempo, um contínuo passar de horas, dias e anos ou, se pensarmos espiritualmente, como um presente, uma dádiva ou uma responsabilidade que assumimos. O que é fato, e o trabalho de Karin Lambrecht parece deixar claro, é que nosso percurso na vida é aceito e entendido por cada um de nós de maneira diferente e pelo seu desenlace devemos ser, individualmente, responsabilizados. A artista sabe que acolher a transitoriedade e fazer de sua investigação o ponto de partida para seu movimento é, por conta disso, aceitar um risco. Mas sabe também que, se não se resigna a esse, poderá estar sujeita a um outro, talvez mais difícil de ser aceito por qualquer artista verdadeiramente comprometido com seu trabalho e com a interação em sua realidade: o risco de reprimir e paralisar, de alguma for- ma ou em algum momento, sua capacidade de enfrentar dificuldades, de aprender, de errar, de recomeçar, de experimentar e de modificar suas situações contingentes.
     De alguma maneira, o que Karin Lambrecht parece procurar na experiência de arte é um novo modo de assimilação da realidade. Sem o intuito de controlá-Ia ou submetê-Ia às suas dúvidas existenciais e desejos estéticos particulares, a artista toma essa realidade como parâmetro para o desdobramento de sua observação criativa. Sua aproximação da vivência artística é um movimento necessário de desenvolvimento contínuo do espírito. Uma evolução poética que, em lugar de tentar analisar ou deter o fluxo de suas emoções e impressões do real, o ajuda a fluir. Sua obra, calcada em uma ação empírica, não é um processo totalmente consciente ou racional de análise do embate entre o homem e seu ambiente. A artista transforma suas experiências em expressão, matéria e forma e submete a natureza à sua concentração enquanto investiga a criatura e a condição humanas. O trabalho de Karin Lambrecht não resulta na construção sintética de uma realidade já entendida e dominada. e não deriva somente de uma intensa experiência da realidade, mas também é construído, toma forma, em um processo particular de tentativa de compreensão de situações que se dispersam. Existe na obra de Karin Lambrecht, indubitavelmente, uma necessidade urgente de ação que visa reorganizar sobre uma base sólida, seja material ou espiritual, sua maneira de ver e interagir no mundo. O sangue e a terra, utilizados por ela como pigmentos consistentes na elaboração de suas pinturas, desenhos e ações, esparramam-se sobre as superfícies, sem grandes contrastes ou intenções com positivas, na tentativa de fazer do objeto de arte e da própria experiência artística, algo mais do que aquilo que a sociedade do bem-estar torna imediatamente aceitável e reproduzível e, no caso específico dos trabalhos com sangue - nas palavras da própria artista - "revelar algo que vem das áreas mais repulsivas da forma humana, do lado que não gostamos de encarar, das zonas mais obscuras do nosso pensamento". Penso que, para Karin Lambrecht, talvez seja justamente nessas zonas sombrias que residam as respostas às suas interrogações essenciais sobre a relação do homem com a natureza, dos fundamentos éticos de respeito ao outro, das dúvidas religiosas em relação aos aspectos terrenos, da tentativa de construção de sentido para suas ações e do contínuo trânsito entre a vida e a morte entitativas.
     Nossas dúvidas, medos e inseguranças existenciais, conferem grandeza ao nosso esforço e comprometimento na realização de nós mesmos. A tentativa de atingir essa realização, em qualquer dimensão, seja material, espiritual ou poética, revela uma necessidade tanto de proteção frente aos desgastes inevitáveis da convivência humana, como de alento diante da idéia de transitoriedade e finitude que nos são impostas pela vida. Karin Lambrecht, em sua produção singular baseada na dualidade entre corpo e alma, homem e animal, vida e morte, realiza uma silenciosa e profunda poesia material marcada por um forte caráter espiritual. Essa poesia, que a própria artista, por vezes, sente dificuldade em enxergar em seu trabalho, se revela justamente na singularidade de seu movimento e na extensa unidade de natureza humana que sua investigação reflete. É fato que para o possível observador, dada sua proximidade como ser humano frente a estes fenômenos, se toma extremamente difícil, em uma perspectiva apropriada, a apreciação de to- dos os fatores envolvidos no trabalho. Alguns diriam que se trata de uma mensagem mórbida. A própria artista já declarou não sentir felicidade em realizar alguns de seus trabalhos, justamente por sentir neles a presença da morte. Mas a surpresa para aqueles que talvez apenas tenham ouvido falar e se encontrem, pela primeira vez, diante destas obras será notar que elas remetem muito mais à uma idéia de manutenção e experimentação da vida, do que à discussão de finitude que a priori parecem provocar. De uma maneira geral, o movimento de Karin Lambrecht é germinal, é de revelação. Mesmo o sangue e a terra, presentes no trabalho, ali estão como os elementos vitais que nos alimentam e nos trazem energia. Sua obra sugere uma reflexão acerca da condição humana e da consciência de nossa inerente fragilidade, podendo ser vista como uma poesia vital onde, a princípio, tudo é nascente. O que, por fim, esta investigação parece querer mostrar é que quando alguma doença nos acomete, quando a existência se toma efêmera, quando os objetivos se misturam e a disposição e a vontade se ocultam, nossa vida toma enferma. Mas, como Agustin B. deI Valle, em seu livro Filosofia do Homem, já nos levou a indagar, não será justa- mente o enfermo, aquele que mais anseia por sair de sua enfermidade?



Uma carta de amor e de ciúme.
Carta a DIEGO RIVERA.
23 de julho de 1935.

     Por acaso vi uma certa carta, num certo casaco, pertencente a um certo homem, vinda de uma certa dama da distante e maldita Alemanha. Acho que deve ser a dama que Willi Valentier mandou para cá para se divertir e com propósitos "científicos", " artísticos" e " arqueológicos" ...que me deixou zangada e, para dizer a verdade, enciumada ...
     Por que tenho que ser tão teimosa e obstinada, a ponto de não compreender que as cartas, os problemas com as saias, as professoras de ... inglês, as modelos ciganas, as ajudantes de "boa vontade", as discípulas interessadas na "arte de pintar" e as mulheres pleniponteciárias, mandadas de lugares distantes, são simplesmente piadas, e que, lá no fundo, você e eu nos amamos muito? Mesmo que vivenciemos aventuras intermináveis, rachaduras nas portas, "referências" a nossas mães e queixas internacionais, acaso não estamos sempre sabendo que amamos um ao outro? Acho que o que está acontecendo é que sou meio estúpida e uma tola, porque todas essas coisas aconteceram e se repetiram nos sete anos que vivemos juntos. Toda esta raiva simplesmente me fez compreender melhor que eu o amo mais do que a minha própria pele, e que, embora você não me ame tanto assim, pelo menos me ama um pouquinho - não é? Se isto não for verdade, sempre terei a esperança de que possa ser, e isto me basta...
     Ame-me um pouco. Eu adoro você Frieda



AINDA Rainer Maria Rilke.
com Cartas a um jovem poeta
Viareggio, perto de Pisa (Itália), 5 de abril de 1903

     (...) Com efeito, em última análise, é precisamente nas coisas mais profundas e importantes que estamos indizivelmente sós, e para que um possa aconselhar ou mesmo ajudar a outro, muito deve acontecer; muitos sucessos favoráveis devem ocorrer, toda uma constelação de eventos se deve reunir para que uma única vez se alcance um resultado feliz.
     Quero falar-lhe hoje de duas coisas. Primeiro, da ironia.
     Não se deixe dominar por ela, sobretudo em momentos estéreis. Nos momentos criadores procure servir-se dela, como mais um meio de agarrar a vida. Utilizada com pureza, ela também é pura e não nos deve envergonhar. Ao verificar, porém, que se familiariza demais com ela, temendo uma intimidade excessiva, volte-se para objetos grandes e graves, diante dos quais ela se encolhe desajeitada. Busque o âmago das coisas, aonde a ironia nunca desce; e, ao sentir-se destarte como que à beira do grandioso, examine ao mesmo tempo se essa concepção das coisas deriva de uma necessidade de seu ser. Sob a influência das coisas graves, com efeito, a ironia ou o abandonará por si mesma ( se tiver sido algo de ocasional ) ou então se reforçará (caso lhe pertença como coisa inata) num instrumento sério, enquadrando-se no conjunto dos meios com o que o senhor deverá moldar a sua arte.
     A segunda coisa que lhe queria dizer é a seguinte:
     De todos os meus livros, só alguns me são indispensáveis, mas há dois que se encontram entre meus objetos de uso onde quer que ande. Tenho-os comigo aqui também: a Bíblia e os livros de grande poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen. Pergunto-me se os conhece. Pode facilmente adquiri-los, sendo que parte deles foi publicada na coleção Reklam, em ótima tradução. Adquira o volumezinho Seis novelas de Jens Peter Jacobsen e seu romance Niels Lyhne e comece pela primeira novela do primeiro volume, intitulada Mogens. Um mundo se abrirá aos seus olhos: a felicidade, a riqueza, a inconcebível grandeza de um mundo. Viva nesses livros um momento, aprenda neles o que lhe parecer digno de ser aprendido, mas antes de tudo, ame-os. Esse amor ser-lhe-á retribuído milhares de vezes e, como quer que se torne a sua vida, ele passará a fazer parte, estou certo, do tecido do seu ser, como uma das fibras mais importantes, no meio das suas experiências, desilusões e alegrias.
     Se eu tivesse de confessar com quem aprendi alguma coisa acerca da essência do processo criador, sua profundidade e ternidade, só poderia indicar dois nomes: o de Jacobsen, este poeta máximo, e o de Auguste Rodin, o escultor que não tem igual entre todos os artistas de nossos dias.
     Que tudo lhe suceda bem em seus caminhos. Seu Rainer Maria Rilke




Meus vidros
Ivette Brandalise


conheça a autora
      Os dicionários da Lingua Portuguesa se recusam a registrar o verbo POETAR. Mas ele existe e pode ser conjugado das mais diversas maneiras. Até com palavras. Mas não necessariamente com palavras. Há poemas nas notas escritas numa partitura como há poemas nas notas soltas que, saídas de algum instrumento, se derramam no ar.

      Há o poema da flor que se abre como há o poema trágico da flor que se deixa morrer longe de suas raízes, aprisionada num recipiente qualquer. Há o poema da estrela que morreu antes que sua luz se extinguisse e há o poema das sombras que nem sabem de estrelas.

      Há poemas no silêncio, no riso que se abre, nas faces que se enrugam, num gesto de ternura, numa lágrima, num olhar.

      Há poemas possíveis nos restos de vida abandonados no lixo. As sucatas permitem todas as histórias, as flores dos jacarandás criam tapetes lilases nas calçadas, os galhos secos me pedem socorro, os cacos de vidro amontoados nos latões se convidam para passear comigo. E eu não resisto. Os braços, feitos para os abraços, aninham cacos e placas como se estivesse alí a possibilidade do meu poema.

      É o poema que eu busco no vidro. Na transparência do vidro. Na rigidez que se desfaz no calor e na suavidade com que ele se entrega aos moldes, ou às idéias que os moldes sugerem. A placa fria e estática se enroscando sinuosamente no jogo das matrizes, surgindo com outras formas, traduzindo e refletindo poemas de transformação. Os pedaços disformes, aparentemente inúteis, se unem a outros pedaços escrevendo uma nova história. Sempre uma história única. Não há repetições na junção dos cacos. Eles nunca são iguais, como eu também não sou igual ao que fui ontem, quando me envolvi com pedaços diferentes, resultantes de projetos frustrados, de acidentes, de desatenções, até de maus tratos. Nos vidros quebrados há histórias interrompidas, nos vidros que se unem há uma vida que se inicia.

      No processo criativo, há o prazer divino de gerar vidas. E nem importa que tipo de filho se está gerando, o que importa é o mergulho no ato de criar e a consciência de que sempre se retorna mais rico, mais fecundo, mais potente quando a entrega é incondicional, determinada pela crença nas possibilidades, nutrida pelo afeto, embalada na ternura.

      E já nem sei se o que tento no vidro é escrever um poema, ou se busco preservar as condições de reprodução, de maternidade, gerando filhos que fazem para mim, a cada dia, um novo poema.

      -       O resultado está aí, pra quem quiser testemunhar. São meus filhos. São meus poemas.




Escrever, Armadilha Amorosa,
pensando Roland Barthes.

Ler é encontrar a identidade e pensar o mundo.

Mas, não basta pensar, carregar, armazenar conhecimento. O homem seria omisso, talvez, egocêntrico se de toda a sua potencialidade restasse, apenas, como uma vida para si próprio. Há que participar.

Assim, é preciso ação após o conhecimento, constatação. Que exista a permanente reavaliação e reconstrução do saber.

A expressão do homem....suas vozes....O som do ser humano, o gesto, o andar, o escutar, é mais uma vez o som genérico das vozes que não cantam soltas, nem livres mas engajadas nos espaços permitidos, decodificadas por outras vozes.

O homem entre outros homens: dizemos para sermos ouvidos; escrevemos para sermos lidos; pintamos para sermos vistos, fazemos música e manifestamos ainda outras vozes: compartilharmos o Eu;...um Eu que se formou de vida - experiência e leituras absorvidas. Este mesmo homem quer, então, participar.... agir e fazer através da escrita: expressão.

O ato de escrever nunca é a cópia do que já foi feito, ou, pelo menos não deveria ser. Escrever é instalar-se na recusa do estabelecido; instalar-se no novo; talvez na solidão, acusando a escrita, a ação anterior que nos parece falsa, inadequada ao novo fato que se impõe. Assim, escrever é participar da história. Escrever tanto é prática como também compromisso político e ideológico.

O ato de escrever supõe decisão, coragem. Escrever é lutar, enfrentar e ou receber o golpe. Suicídio ou a glória. Mas escrever assegura mudanças; implica em não se deixar apenas ocupar...interiorizar-se, observar; mas participar de uma forma contundente do mundo. Reconstruímos e ou alteramos o estabelecido.

A compreensão acontece na leitura como reflexão, internalização, posteriormente, a ação se faz no escrever. Somos parte assimilando o mundo e o todo agindo no mundo.

Escrever é registro da intenção.

O texto, espaço expressivo de quem escreve, é sedução. Seduzir requer toda uma aventura: admitir a necessidade de um propósito. O corpo do escritor junta-se ao corpo do leitor num abraço que busca a resolução do amor.

Assim, a atividade de escrever insere-se entre as outras atividades sociais. Escrever, então, é fugir da alienação. Escrever é armadilha, e amorosa.

E Mattos, 2001



AcquArs
Mario Wrege

Água é essencial à Vida e à Natureza, mas também à Arte. Isto não apenas por fazer parte de aquarelas e das limpezas dos Ateliês. A agua é Arte.

Comecemos pelo mais simples, aquelas que a Natureza nos proporciona. O arco-íris. Ficamos maravilhados e em êxtase ao descobrirmos um arco-íris. E ainda achamos que no fim do arco-íris acharemos nossos sonhos. O espelho de água. Como é tranqüilizador sentar-se ao lado da água e ver os reflexos, que são contínuos e mutantes. E o entardecer. Todos gostamos de um belo pôr-do-sol, inda mais se houver um espelho de água para refletir as colorações atmosféricas. E as grutas. Aquele ambiente majestático e colorido, todo ele construído pelo trabalho contínuo e constante do gotejamento pelos tempos geológicos.

Normalmente associado aos espelhos de água nos parques temos as fontes. Imponentes e poderosas, enviando jatos de águas às alturas. E cada cidade e cada parque quer ter a fonte mais bonita! A elas podemos associar cores e sons e termos as águas dançantes. E todos gostamos, especialmente as crianças e, assim, voltamos a ser crianças.




O retrato
Ivette Brandalise

      Não é mãe de primeiro filho. Aquele ar sereno, cabelo cuidado, uma madeixa estrategicamente caída sobre um dos lados da face, a roupa alinhada, o sorriso bem composto, os lábios recém pintados, as maçãs do rosto coloridas, aquela figura, que aparece nos retratos com o filho pequeno e tranqüilo nos braços, não pode ser mãe de primeiro filho. Ou é um momento de mãe produzida para o retrato.
      Quero uma mãe retratada no seu cotidiano. Tela acomodada no cavalete, tintas preparadas, pincéis à mão, e vamos ao quadro: os cabelos em desalinho, uma sombra abaixo dos olhos assustados, a palidez e marcas num rosto mal dormido, blusa amarrotada e semi-aberta, a mulher segurando uma criança aos prantos. É fundamental destacar, na postura, nos gestos, toda a insegurança da principiante, toda a angústia e impotência diante daquele choro que pode ser de fome,de frio, de calor, de desconforto, ou de dor. E onde se localiza a dor na criança que não fala? A pobre mulher apertando ouvidos, virando a criança de barriga pra baixo, tirando e recolocando fraldas, a pobre mulher tirando o seio pra fora da blusa, devolvendo o seio ao seu lugar sem tempo e sem jeito para encontrar o botão que fecharia a roupa.
      Quero a mulher na cozinha, preparando os primeiros sucos, as primeiras papas, que a criança vai cuspir quando sentir o gosto estranho que não é de leite. A mulher na frente de uma pequena banheira, com todos os medos aflorando diante da criança despida que esperneia na água.
      a mulher acordando no meio da noite para se comunicar na linguagem do pranto. E, no meio disso tudo, é preciso que apareça um sorriso que escapa entre as lágrimas, um brilho de alegria, que é mais forte que o medo, a descoberta de uma nova forma de amor, um sentimento de plenitude que vai além dos limites da tela.
      Se o pintor estiver pronto, podemos começar o retrato da mãe estreante com seu bebê nos braços.

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Paris, 1 de fevereiro de 1903.
Rainer Maria Rilke, in Cartas a um jovem poeta.

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra pisou. Menos susceptíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa efêmera.

(...) Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo -, peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: " Sou mesmo forçado a escrever?" . Escave dentro de si uma resposta profunda. SE for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com essa necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. (...) FRAGMENTO.




A Memória do Esquecimento
Elisabeth Mattos

"A amizade é indispensável ao homem para o bom funcionamento de sua memória. Lembrar-se do passado, carregá-lo sempre consigo, é talvez a condição necessária para conservar, como se diz, a integridade do seu eu. [...] Como a amizade nasceu? Certamente como uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o homem ficaria desarmado perante seus inimigos."

A mulher avança neste tempo de lembrança: o cheiro do abraço, as horas do vagar entre os afazeres da casa, o olhar caído nas crianças, as leituras feitas no silêncio bebericando o chá ou o café. O sorriso das visitas, a ansiedade dos afetos. E o dia passando, às avessas, afogado em projetos. Tantos projetos, tanto querer e fazer. O discurso, o texto mudou: a mulher está pilotando, desenhando, correndo, vencendo. A identidade não está na lembrança; positivamente é o momento presente que define tudo. Não temos o tempo do cheiro encerado, da geleia borbulhando, das roupas com goma e dos vidros transparentes pro jardim e pro quintal.

Na beira da calçada, homens, mulheres, crianças e velhos, todos esperamos ansiosos para avançar. A amizade não é memória, não devolve nenhuma imagem, não há tempo: urge fazer. Alianças contra adversidade? Sobreviver engole tudo: não há sequer inimigos. Amigos e inimigos diluídos na produtividade. Alerta! Não existem mais homens e ou mulheres, apenas soldados, lutando.

Se fosse possível outra vez memória, amizade, seria necessário abrir a porta daquela casa e entrar. Ficar ali para poder olhar e enxergar nela a mãe, a avó, a irmã, a filha, a amiga, a identidade feminina perdida. Plantar outra vez a semente da mulher na família que perdemos.





0 MAIOR VÍCIO ENTRE OS VÍCIOS...
Elisabeth Mattos, Torres, domingo, 5 de abril de 1998

     O maior vício entre os vícios pode ser a leitura. A leitura obsessiva que fazemos de nós mesmos em tudo o que lemos, e, principalmente, nos livros que lemos. Ao lermos não buscamos , apenas, idéias novas, mas pensamentos já pensados por nós, que adquirem na página um selo de confirmação. As palavras dos outros nos atingem ao ressoarem numa zona que já é nossa - que já vivemos - e, fazendo-a vibrar, permite recolher novas sugestões dentro de nós.
     Novas sugestões que buscamos diariamente em cada pensamento lido, em cada matéria, em cada poema lido...Lemos remexendo nas cinzas de nossas lembranças, sacudindo bagagens ou simplesmente nos reconhecendo.
     Quanta grandeza no pensamento de que todo o esforço é inútil! Basta deixar aflorar nosso eu, acompanhá-lo, dar-lhe a mão, como se tratasse de um outro; confiar em que somos mais definitivos do que podemos imaginar.
     E, somos mais que definitivos, na mesma medida em que o vício de ler nos possui e alimenta cada novo pedacinho de interioridade, dos conhecimentos, experiências presentes, vividas a cada nova leitura. Somos definitivos quando lendo, tomamos posse dessa leitura, colando à nossa pele todas as emoções, todo aquele saber...o livro nos torna, realmente, muito mais próximos de nós mesmos.
     Ler é o desdobramento do mundo. Nada, ninguém, coisa alguma pode substituir esta intimidade gorda que estabelecemos com o livro.
     Os livros estão ao alcance das nossas mãos e de nossas interioridades num desdobramento necessário a todo e qualquer ser humano que se pretende inteiro, livre e descoberto.
     Ler é o maior vício entre os vícios.
     O efeito da leitura é sentido pela expressão do pensamento do leitor: o interminável diálogo com ele mesmo, reflexos, soluções para ansiedade, aplacar os medos, avaliar, reconstruir, alargar a vida, tudo isto é leitura.
     Os olhos vêem longe, os ouvidos escutam , as mãos tocam, novos cheiros a novas páginas. Tempo de caminhar para dentro e viver a transformação: ler.
     Não existe o tempo certo para ler. As palavras têm asas e desenham como borboletas a transformação. Há diferentes ritmos do tempo nos vários estágios da vida de uma pessoa e de suas leituras que resultam no desenvolvimento. Ler é a corrida rumo a identidade. A leitura é alimento.
     Cuidado com o vício!
     De repente nos afogamos nesta identidade: sermos inteiros, sermos naturais, com toda a amplitude que a palavra possui, é sufocante. Este natural, a verdade, o autêntico não têm parceria no mundo. Luta permanente e solitária; há que abastecer, realimentar para continuar imprimindo a singularidade: ser completo. A leitura é solitária mas encontra alívio na intimidade com o livro. E, resultado que significa: projeção do outro que estará mapeando o nosso mundo, uma descoberta. Assim, sobrevivemos escondidos nestas máscaras e renascemos a cada livro; renascemos no prazer do vício de ler, o maior dos vícios.




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